Arquivo do Autor para talitaborelli

24
Jun
08

Para quem adora Bergman

Bom, essa não é de literatura, mas como coisa boa é sempre bom saber, lá vai!

Nessa última semana de junho acontece, na ilha de Farö, na Suécia, a Semana Bergman, para os amantes de cinema e de Bergman.

Dois filmes foram escolhidos para serem projetados na ilha que o cineasta escolheu para ser o seu cantinho, onde, sossegado, gravou seis longas durante sua vida.

A semana, promovida pelo Svensk Filminstituet, o Instituto Sueco de Cinema, acontece há cinco anos, sempre nos lugares em que o próprio Bergman costumava filmar e os filmes são apssados em uma salinha pequena, de cadeiras de madeira, para críticos de cinema de alguns países.

A madrinha deste ano, a cineasta Margarethe Von Trotta escolheu O Sétimo Selo por considerar que este foi o filme decisivo na escolha da sua profissão, enquanto a escolha de Joan Troel foi Somalek, o primeiro dos filmes de verão de Bergman.

A Semana Bergman acontece de 26 a 30 de junho. Uma pena que o público não pode participar, mas basta saber que, dentro de toda sua genialidade, Bergman não será esquecido pelq crítica nem pelos amantes de cinema!

22
Mai
08

E por falar em América Latina…

Este mês a editora Duetto lançou mais um de seus cadernos de literatura, um panorama para quem quer conhecer mais sobre a literatura de um país e seus escritores, antigos e recentes. Só que dessa vez foi a América Latina, com todas as suas peculiaridades e genialidades que ganhou forma na nova edição. Vale a pena saber um pouco mais sobre Cortázar e seu realismo fantástico, Octavio Paz, Carlos Fuentes, Roberto Bolaño e Jose Martí, um poeta cubano. Ah! E dá para os atrasadinhos de plantão comprarem seus exemplares, mesmo que já tenham sido recolhidos… É só entrar no site e pedir, pelo mesmo preço da banca! Para dar uma espiadinha no conteúdo É só clicar no link abaixo

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16
Mai
08

Luta e maravilhamento em Cortázar

 

A vida de Julio Florencio Cortázar teve um começo, diga-se, inusitado. Filho de pais argentinos, ele nasceu na embaixada do país na Bélgica, onde a família estava morando por conta de trabalhos diplomáticos do pai, Julio Cortázar. A mãe, Maria Herminia Descotte era dona-de-casa e foi a maior incentivadora do filho para que ele torna-se escritor.

Tipo alto, esguio, os cabelos desgrenhados, quase despenteados, olhos castanhos de um olhar penetrante; firme, mas distante, como se quisesse esconder algo. O sorriso era tímido, talvez em razão da infância nada fácil. Desde pequeno sofreu provações. Foi abandonado pelo pai, teve que vencer as inúmeras doenças a que foi acometido, mudou de país por não concordar com o regime peronista na Argentina… E venceu todas. Teve a vida que quis e a que não podia imaginar.

A infância pobre e o fato de estar sempre doente levaram Julio a ler muito, livros escolhidos por sua mãe. Apaixonou-se por Julio Verne logo de cara; recebeu grande influência de Edgar Allan Poe, de quem foi o maior tradutor. Quando morou em Barcelona, encantou-se com o Parque Güell, idealizado por Antoni Gaudí, tendo-o como fonte de inspiração. Como ele mesmo contava, “pase mi infância em uma bruma de duendes, de elfos, com um sentido del espacio y del tiempo diferente al de los demás”.

Cortázar foi o precursor de um tipo de literatura que ficou conhecido como realismo fantástico, por tratar o texto com maravilhamento e fantasia. O autor relatou, certa vez, que “desde pequeño, me fascino la noción de monstruo, la idea de los animales mitológicos: uma cabeza de león, alas de áquila y plumas de pato, porque eso naturalmente provoca la indiferencia general de la gente . Pero me fascinaba porque me di cuenta de que eso se podia extrapolar a operaciones mentales, a conductas. Desde que yo empece a escribir, la noción de lúdico estuvo profundamente imbricada, confundida com la noción de literatura. Para mi, uma literatura sin elementos lúdicos era uma literatura aburrida, la literatura que no leo, la literatura pesada, el realismo socialista”. E ele tem inúmeros livros, sendo mais de 50 entre romances, cartas, livros sobre teatro, poesia, e até, tardiamente, sobre política.

Comunista que era, não concordava com o governo de Perón, na Argentina, mudando-se para Paris em 1951, a pátria que escolheu para viver e morrer. De fato, Cortázar nunca tinha se interessado por política. Mas, ao visitar Cuba, foi tomado de assalto pelos movimentos contra a ditadura que aconteciam tanto na América Latina e sua literatura foi marcada por esse movimento. Segundo ele, “la revolución cubana, por analogía, me mostró entonces y de una manera muy cruel y que me dolió mucho, el gran vacío político que había en mí, mi inutilidad política. Desde ese día traté de documentarme, traté de entender, de leer: el proceso se fue haciendo paulatinamente y a veces de una manera casi inconsciente. los temas en donde había implicaciones de tipo político o ideológico más que político, se fueron metiendo en mi literatura. Ése es un proceso que se puede ir apreciando a lo largo de los años.”.

Mas Cortázar nunca foi militante, apenas colocou no papel todo o sentimento que tinha em relação à América Latina, em geral. Ele descobriu sua consciência política e o interesse humanístico a partir da preocupação e o interesse pelo destino do próximo.

Nas palavras do escritor, “comprendí que el socialismo, que hasta entonces me había parecido uma corriente histórica, acetable e incluso necesaria, era la única corriente de los tempos modernos que se basaba em el hecho histórico esencial, em el ethos tan elemental como ignorado por lãs sociedades en que me tocaba vivir, em el inconcebiblemente difícil y simple principio de que la humanidad empezará verdaderamente a merecer su nombre el dia que haya cesado la explotación del hombre por el hombre (…) Desde el momento em que tomé conciencia del hecho humano esencial, esa búsqueda representa mi compromiso y mi deber”. De fato, a revolução cubana nunca mais tiraria o furor com escrevia sobre isso, mas sem perder o foco da sua literatura. De acordo com Cortázar, era uma literatura de compromisso, e não comprometida.

Durante uma boa parte da carreira, não conseguiu distinguir política e literatura, produzindo muitos livros a respeito desse assunto. Dentre eles, o mais político de todos é “El libro de Manuel”, em que há uma síntese das buscas estéticas e do interesse pelos movimentos revolucionários daqueles anos, mas que ainda assim, conserva toda a fantasia e o frescor que fizeram de Cortázar um escritor único, incomparável. Um homem que escrevia com humor, por acreditar que assim, os temas ásperos das ditaduras latino-americanas seriam mais facilmente digeridos pelos leitores. Essa era a sua vontade. De um mundo mais justo, mais humano, mais igual.

Em 12 de fevereiro de 1984, no entanto, a pena cessou. Julio Cortázar faleceu por causa da leucemia, em Paris. E a literatura ficou órfã de um dos seus maiores expoentes.

08
Mai
08

Uma briga antiga…

“DO ‘INDEPENDENT’ – Por que Mario Vargas Llosa socou Gabriel García Márquez, seu rival pelo título de mais importante romancista latino-americano do século 20, em um cinema mexicano, em 1976, dando início a uma das mais longas brigas na história das letras contemporâneas?

Os dois gigantes do romance moderno, que um dia foram grandes amigos, não se falam desde o dia em que o escritor peruano aplicou um gancho de direita contra o olho esquerdo do escritor colombiano, há três décadas. Nenhum dos dois revelou os motivos para a desavença, se bem que ambos tenham deixado escapar que se tratava de ‘algo pessoal’.

Ao longo dos anos, não faltaram especulações sobre a causa do desentendimento original. ‘Uma suspeita que circula amplamente é a de que a briga tenha sido causada por diferenças de opinião política’, postulava recentemente um blog latino-americano.

É verdade que García Márquez foi e continua a ser esquerdista. Vargas Llosa, no entanto, abandonou o amor juvenil por Fidel Castro e disputou sem sucesso a Presidência do Peru, como candidato de direita. Embora suas opiniões políticas tenham divergido amplamente, não se acredita que tenha sido essa a causa da briga.

Outros observadores especularam que ciúmes profissionais eram a causa do murro que deflagrou a discórdia. Embora seja considerado criador, ao lado de García Márquez, do realismo mágico, os trabalhos de Vargas Llosa não têm estatura comparável aos do rival. ‘Cem Anos de Solidão’ é considerado um dos clássicos definitivos da literatura do século 20.

De acordo com uma nova biografia de García Márquez, ‘The Journey to the Seed’ [a jornada para a semente], de Dasso Saldivar, os dois brigaram por causa de uma mulher. E embora García Márquez já tenha 80 anos, e Vargas Llosa tenha chegado aos 70, a rivalidade entre eles não diminuiu.

No mês passado, o jornal inglês ‘The Guardian’ informou que Vargas Llosa havia escrito um prefácio para uma edição comemorativa de ‘Cem Anos de Solidão’ que será lançada para celebrar o 80º aniversário do autor, o 40º aniversário da publicação do livro e o 25º aniversário de sua premiação com o Nobel de literatura.

A agente literária de García Márquez, Carmen Barcells, começou imediatamente a negar a história. A edição especial incluirá o excerto de um ensaio elogioso de Vargas Llosa sobre o romance, escrito antes que os dois se desentendessem.

Isso ainda assim revela que o tempo serviu para abrandar a disputa, ao menos parcialmente. Desde que o ensaio foi publicado, em 1971 (em edição que se esgotou rapidamente), Vargas Llosa se recusou a permitir que fosse reimpresso, a despeito da grande demanda e da existência de pelo menos uma edição pirata. No ano passado, decidiu voltar atrás, e permitiu que o texto fosse incluído nas suas obras completas, publicadas em 2006, mas o que o motivou, aparentemente, foi o desejo de preservar a íntegra de seu legado literário pessoal.

24
Abr
08

O poeta severino: João Cabral de Mello Neto

Enquanto o clima esquentava no ano de 1968, a Academia Brasileira de Letras recebia mais um membro ilustre: João Cabral de Melo Neto.

 

Exatamente no calor de todos os acontecimentos e protestos, o poeta foi eleito no dia 15 de agosto e 68, mostrando que nem tudo estava perdido e que em meio ao caos, ainda havia esperança.

Entre os livros do escritor, talvez o mais conhecido seja “Morte e Vida Severina”, publicado em 1956, no qual João Cabral narra a história de uma família de retirantes, assolada pela pobreza e pela fome, em busca de uma vida melhor.

 

Na vida, João Cabral fez de tudo um pouco. Amante de futebol, foi campeão juvenil em Pernambuco, seu estado natal; também adorava a boemia e os amigos, com quem freqüentava bares e rodas de intelectuais. Foi embaixador e fez várias andanças pelo mundo a serviço do Itamaraty, mas nunca deixou de escrever e publicou livros durante quase toda sua vida.

 

Ele sofria com intensas dores de cabeça e dizia que a aspirina era sua fonte de inspiração para escrever. No entanto, descobriu que era a conseqüência de uma doença incurável, que o deixaria cego, e que acabou o levando para longe dos livros, para escrever em outro plano. Ela tirou de João Cabral a vontade de escrever e de falar, e de nós, o prazer de ler aquele que é um dos maiores escritores e poetas que conhecemos. Aos 79 anos, perdíamos João Cabral de Melo Neto.

 

Por ocasião da morte do poeta, Arnaldo Niskier disse em seu discurso:

 

“Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.”

 

Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina.

Aqui está o poeta João Cabral de Melo Neto, presente pela última vez na Academia Brasileira de Letras, de que foi, por 30 anos, uma das figuras fundamentais. Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória do Prêmio Nobel de Literatura.

Descanse em paz, poeta João. A sua presença jamais deixará de estar conosco. Teremos o consolo da sua poesia imortal.”

 




 

Dezembro 2009
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