Arquivo do Autor para jacquelinemanfrin

01
Jul
08

Negros da gema


Funk carioca ou cumbia argentina. Em Coisa de Negros, as histórias se confundem num emaranhado narrado por Washington Cucurto. Os costumes e maneiras de enxergar a realidade foram traduzidos do espanhol original para o português por André Pereira da Costa. Bom seria se todo o sentido da narrativa fosse preservado nos minúsculos detalhes explorados pelo autor nesta viagem ludibriante pelos becos e subúrbios da bela Buenos Aires. As moças do Samber são musas do imperfeito, dançam a cumbia no ritmo alucinantemente sensual e pervertido. O machismo é predominante em todas as cenas, com o posicionamento autoritário e dominante sobre as fêmeas, que requebram e rebolam para todos os lados, até atingir o êxtase embriagante das delicias do prazer.


A história não é apenas a música tropical da América Latina. Muito mais que isso, os silenciados podem ser ouvidos, ainda que não façam questão de aparecer. A abordagem sociológica e cultural das regiões do Samber é fracamente explorada em Coisa de Negros, que opta pelo naturalismo excessivo, que muitas vezes, beira o cômico. A maneira como Cucurto retrata o subúrbio argentino cria a ilusão de que é o submundo, que foge da incompreensão humana sobre os costumes e formas de relacionamento. O sexo é tratado como algo promíscuo e degradante, como se os personagens fossem animais no cio. No livro, o autor não se utiliza do pudor para descrever as artimanhas intimistas do casal, sempre movidos pelo prazer e pelo instinto.

 
Não por descuido de Washington Cucurto, mas principalmente pela tradução brasileira, o texto soa impróprio, por mostrar uma imagem desconexa com a realidade. Na verdade, o autor argentino falou sim das relações existentes do Samber, mas sem deixar escorregar por entre as mãos a intenção de retratar uma cena social, costumes e hábitos impróprios para a maioria das civilizações ocidentais, mas absolutamente cabível para os moradores da região. O leitor brasileiro poderá se sentir como num baile de funk carioca, misturado com as cachorronas e tchutchucas, enquanto Coisa de Negros vai muito além da análise simplista e da descrição banal dos fatos.


Para os entendedores do espanhol, vale a dica de uma entrevista com Cucurto na Universidade de Nova York (em duas partes):

 

 

25
Mai
08

Reviravolta da eterna ditadura

O dia 1º de abril de 1964 seria feriado nacional se o regime não tivesse durado mais de vinte anos e tivesse chegado ao fim pela própria fadiga dos militares. O golpe foi apoiado por muitas e muitas pessoas. Todos acreditavam ser a grande salvação do futuro brasileiro. Pouquíssimos cidadãos se deram conta de que se tratava de uma ditadura forte, que a censura e a violência apareceriam a galope, era só uma questão de tempo.

Carlos Heitor Cony. Nome de um destes cidadãos que não se deixou enganar pela mentalidade alienada da maioria da sociedade brasileira da época. “Eu não entrei nesta. Chamava o ano de 1964 de revolução de caranguejos porque eu achei que era uma violência. Muitos políticos que embarcaram no golpe, quando viram que os militares iam ficar no poder por muito tempo, começaram a mudar de lado”. O favoritismo daqueles que instauraram a ditadura no país era tanta que, se houvesse um plebiscito, cerca de 90% estariam a favor do golpe. Para Cony, apenas em 1968, com o endurecimento do regime e a instauração do AI-5, é que houve uma consciência de que era preciso fazer alguma coisa para derrubar os militares. “Mas, mesmo assim, não fizeram nada, porque a ditadura durou até 85, mais de vinte anos”.

Apesar de muitos protestos e passeatas, muito pouco havia no sentido de combater o regime de frente. As crônicas políticas que Cony publicava nos jornais, antes da censura de 1968, denunciavam o governo, acusando os militares de estabelecerem no país um governo autoritário, em que se excluía a participação popular. Até mesmo Luís Fernando Veríssimo, muito jovem na época, disse que a única participação política é que ele lia as crônicas do Cony e ficava satisfeito, com raiva dos militares. Os seqüestros de embaixadores e algumas tentativas de luta armada se caracterizavam como movimentos isolados, sem o apoio da população.

“Eu era jornalista de amenidades, falava sobre cinema, teatro, balé, mulher, música popular, futebol. Eu reclamei e combati os militares pela falta de liberdade, mas não tive apoio”. Carlos Heitor Cony foi o único jornalista processado e preso sob ordens do Ministro da Guerra Costa e Silva, na época, o maior poder político do país. As outras pessoas que trabalhavam nos jornais e na imprensa foram censurados para deixarem o trabalho, mas o caso de Cony é específico. Foram três meses na cadeia. “Meus amigos mudavam de esquina pra não falar comigo, com medo de serem contaminados. Eu não estava defendendo uma posição política, eu estava defendendo uma questão humana. Eu estava defendendo aquilo que eu chamaria de dignidade humana diante da força”. O livro que reúne algumas das crônicas de Cony foi publicado em 1964, com o título “O Ato e o Fato”. Para o autor, o ato era a ditadura e o fato era que, a partir daquele momento, o Brasil deixava de ser um país livre para se tornar um país escravo.

A geração da ditadura ficou arrebentada porque ficou sem liberdade. Em vez de se preocupar com as questões nacionais, muitos se interessavam por fazer música ou teatro de protesto, mas que não traria nenhuma solução. Não adiantaria cantar “Liberdade, liberdade”, sem tomar uma ação política. “Ainda sinto raiva. Estava tão na cara que era uma ditadura e, como é que o pessoal não percebeu isto? Os jornalistas e artistas ficaram com o rabinho entre as pernas até 68, que foi quando perceberam que quem mandava no Brasil eram os militares e resolveram mudar de lado”. Deixando de lado as questões políticas e sociais do país naquela época, o que não sai da cabeça são as imagens e as sensações do período. Cony esbravejou contra o regime militar de 1964 a 1985 e hoje, traz consigo a lembrança de seis prisões e da falta de percepção da sociedade brasileira diante do quadro de repressão que se instalava no país.

05
Abr
08

Boas vindas ao imaginário literário de 68

 

 Uma grande idéia que se fundamenta em pequenas ações. Seis jornalistas em busca de histórias fascinantes da época revolucionária dos anos 60 e 70. Estes jovens irão mergulhar no universo das letras, dos livros, dos autores e do movimento cultural de 1968 para trazê-las a público.

O objetivo não é relatar os fatos como se eles fossem verdades absolutas. O que queremos é invadir a mente dos jovens do século XXI, trazendo alguns relatos e histórias de vida daqueles que viveram neste período e estavam fortemente ligados ao mundo artístico, especificamente a literatura.

O caminho está aberto. Falta um passo a mais: falta o mergulho na alma, a dissecação de narrativas, a revelação de um ano que deixou profundas marcas e trouxe enormes consequências para todo o resto do mundo. Fica aqui o convite para mergulhar-mos juntos nesta fantástica história que ainda tem muito a nos contar.




 

Dezembro 2009
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