Arquivo para Julho, 2008

01
Jul
08

Aira traz a crise para suas histórias

 

As Noites de Flores é um dos três livros de César Aira traduzidos para o português e publicados no Brasil. Num texto curto de 2004, o escritor argentino conta a história de um casal de meia idade que, devido à crise econômica do país, passou a entregar pizzas a pé no tradicional bairro de Flores, onde morava.

A narrativa é inusitada. Na primeira metade da obra, Aira apresenta Aldo e Rosa Peyró que para fugirem da rotina monótona que a idade lhes oferecia e a fim de aumentarem sua renda, empregaram-se num serviço comum aos jovens da classe média argentina, o delivery. O fato de fazerem a entrega das pizzas a pé lhes rendiam muitas histórias e conversas, além de permitir que eles fizessem exercícios regularmente, o que era recomendável para a saúde de ambos.

Nessa primeira metade do livro, Aira ao descrever tanto física quanto psicologicamente o casal, confere a eles um vigor e uma simpatia que encanta e aproxima o leitor. Rosa, carinhosamente chamada por Aldo de Rosita, andava sempre a esquerda do marido, pois o ouvido direito dele não funcionava tão bem. Ela também sempre ficava do lado de dentro da calçada, um gesto cavalheiro do marido que somado à necessidade da esposa de se posicionar à esquerda dele para poderem conversar, fazia com que tivessem de mudar diversas vezes de calçada, ou mesmo, percorrerem um trajeto maior.

O trabalho no Pizza Show trazia ao casal um sentimento de juventude. Além do convívio com os jovens, o escuro da noite e o domínio que tinham sobre as ruas de Flores faziam com que o casal se sentisse como adolescentes cheios de liberdade. Junto a isso se ligava a responsabilidade que a eles era conferida pelo fato de terem mais idade. Era Aldo e Rosa, por exemplo, que entregavam as pizzas quando o Instituto Sagrado das freiras fazia pedidos.

As andanças noturnas de Aldo e Rosita são marcadas pelo noticiado seqüestro seguido de assassinato de Jonathan, um jovem motoboy também de classe média. Além disso, constantemente referiam-se à crise argentina, a qual era, sem dúvida, a principal causa do crime para o casal. Pelo caminho, muitas vezes, eles se deparavam com Nardo, um ser de baixíssima estatura que tinha asas de morcego e bico de papagaio, a primeira das muitas revelações delirantes do escritor.

Aira, depois de muito descrever o casal e convencer o leitor a respeito da personalidade de ambos, surpreende ao se referir a Rosita como uma velha cega. O leitor depara-se com uma confusa sensação de não estar atento aos detalhes. Entretanto, esse é um dos diversos artifícios explorados pelo escritor argentino. A partir de então, o fio condutor da narrativa se dispersa e o autor insere na história personagens relacionados à investigação do assassinato de Jonathan, como o famoso procurador do Ministério Público Zenón Mamaní Mamaní. É nesse momento que, definitivamente, a história toma um outro rumo. Aldo e Rosa são descartados e o desenrolar do enredo desloca-se para a resolução do crime.

O casal, agora desconhecido do leitor, só aparece novamente quando o seqüestro e o assassinato do jovem motoboy começam a ser esclarecidos. De repente, Aldo e Rosita não são mais os mesmos. O simpático casal desaparece. Diversas máscaras caem. O procurador resolve o caso. O leitor se surpreende. O escritor mostra o quanto é imprevisível. E, Flores perde a simpatia e a graça, tornando-se um cenário desconexo.

01
Jul
08

Negros da gema


Funk carioca ou cumbia argentina. Em Coisa de Negros, as histórias se confundem num emaranhado narrado por Washington Cucurto. Os costumes e maneiras de enxergar a realidade foram traduzidos do espanhol original para o português por André Pereira da Costa. Bom seria se todo o sentido da narrativa fosse preservado nos minúsculos detalhes explorados pelo autor nesta viagem ludibriante pelos becos e subúrbios da bela Buenos Aires. As moças do Samber são musas do imperfeito, dançam a cumbia no ritmo alucinantemente sensual e pervertido. O machismo é predominante em todas as cenas, com o posicionamento autoritário e dominante sobre as fêmeas, que requebram e rebolam para todos os lados, até atingir o êxtase embriagante das delicias do prazer.


A história não é apenas a música tropical da América Latina. Muito mais que isso, os silenciados podem ser ouvidos, ainda que não façam questão de aparecer. A abordagem sociológica e cultural das regiões do Samber é fracamente explorada em Coisa de Negros, que opta pelo naturalismo excessivo, que muitas vezes, beira o cômico. A maneira como Cucurto retrata o subúrbio argentino cria a ilusão de que é o submundo, que foge da incompreensão humana sobre os costumes e formas de relacionamento. O sexo é tratado como algo promíscuo e degradante, como se os personagens fossem animais no cio. No livro, o autor não se utiliza do pudor para descrever as artimanhas intimistas do casal, sempre movidos pelo prazer e pelo instinto.

 
Não por descuido de Washington Cucurto, mas principalmente pela tradução brasileira, o texto soa impróprio, por mostrar uma imagem desconexa com a realidade. Na verdade, o autor argentino falou sim das relações existentes do Samber, mas sem deixar escorregar por entre as mãos a intenção de retratar uma cena social, costumes e hábitos impróprios para a maioria das civilizações ocidentais, mas absolutamente cabível para os moradores da região. O leitor brasileiro poderá se sentir como num baile de funk carioca, misturado com as cachorronas e tchutchucas, enquanto Coisa de Negros vai muito além da análise simplista e da descrição banal dos fatos.


Para os entendedores do espanhol, vale a dica de uma entrevista com Cucurto na Universidade de Nova York (em duas partes):

 

 




 

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