Enquanto o clima esquentava no ano de 1968, a Academia Brasileira de Letras recebia mais um membro ilustre: João Cabral de Melo Neto.
Exatamente no calor de todos os acontecimentos e protestos, o poeta foi eleito no dia 15 de agosto e 68, mostrando que nem tudo estava perdido e que em meio ao caos, ainda havia esperança.
Entre os livros do escritor, talvez o mais conhecido seja “Morte e Vida Severina”, publicado em 1956, no qual João Cabral narra a história de uma família de retirantes, assolada pela pobreza e pela fome, em busca de uma vida melhor.
Na vida, João Cabral fez de tudo um pouco. Amante de futebol, foi campeão juvenil em Pernambuco, seu estado natal; também adorava a boemia e os amigos, com quem freqüentava bares e rodas de intelectuais. Foi embaixador e fez várias andanças pelo mundo a serviço do Itamaraty, mas nunca deixou de escrever e publicou livros durante quase toda sua vida.
Ele sofria com intensas dores de cabeça e dizia que a aspirina era sua fonte de inspiração para escrever. No entanto, descobriu que era a conseqüência de uma doença incurável, que o deixaria cego, e que acabou o levando para longe dos livros, para escrever em outro plano. Ela tirou de João Cabral a vontade de escrever e de falar, e de nós, o prazer de ler aquele que é um dos maiores escritores e poetas que conhecemos. Aos 79 anos, perdíamos João Cabral de Melo Neto.
Por ocasião da morte do poeta, Arnaldo Niskier disse em seu discurso:
“Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.”
Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina.
Aqui está o poeta João Cabral de Melo Neto, presente pela última vez na Academia Brasileira de Letras, de que foi, por 30 anos, uma das figuras fundamentais. Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória do Prêmio Nobel de Literatura.
Descanse em paz, poeta João. A sua presença jamais deixará de estar conosco. Teremos o consolo da sua poesia imortal.”
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