Arquivo para Abril 10th, 2008

10
Abr
08

Memórias

Nas “Boas vindas” do post anterior, Jacquie, em nome de todos nós, garante um blog de bons relatos e histórias daqueles que viveram em 1968. Correndo o risco de ser reducionista, acredito que histórias são memórias, sejam essas visuais, olfativas, sonoras, ou mesmo, todas juntas.

O grande poeta Carlos Drummond de Andrade em “(In) Memória”, poema de abertura de Biotempo & a falta que ama (1968), mostra seu compromisso de testemunho diante de um retrato e revela que o resgate de memórias é feito, inevitavelmente, ao lado de agoras.

 

De cacos, de buracos

de hiatos e de vácuos

de elipses, psius

faz-se, desfaz-se, faz-se

uma incorpórea face,

resumo de existido.

 

Apura-se o retrato

na mesma transparência:

eliminando cara

situação de trânsito

subitamente vara

o bloqueio da terra.

 

E chega àquele ponto

onde tudo é moído

no almofariz do ouro:

uma europa, um museu,

o projetado amar,

o concluso silêncio.

 

Sem querer divagar muito, ao ler o último verso “o concluso silêncio”, lembrei do desabafo de Clarice Lispector “Sei mais silêncio que palavras”, na crônica Um amor conquistado.

Refletindo sobre esses pequenos pontos, acredito que as memórias, ainda mais essas com as quais queremos lidar, são feitas com intersecções de realidade, quando não, são apenas silêncio, o qual traduzo como emoção.




 

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