Arquivo para Abril, 2008

24
Abr
08

O poeta severino: João Cabral de Mello Neto

Enquanto o clima esquentava no ano de 1968, a Academia Brasileira de Letras recebia mais um membro ilustre: João Cabral de Melo Neto.

 

Exatamente no calor de todos os acontecimentos e protestos, o poeta foi eleito no dia 15 de agosto e 68, mostrando que nem tudo estava perdido e que em meio ao caos, ainda havia esperança.

Entre os livros do escritor, talvez o mais conhecido seja “Morte e Vida Severina”, publicado em 1956, no qual João Cabral narra a história de uma família de retirantes, assolada pela pobreza e pela fome, em busca de uma vida melhor.

 

Na vida, João Cabral fez de tudo um pouco. Amante de futebol, foi campeão juvenil em Pernambuco, seu estado natal; também adorava a boemia e os amigos, com quem freqüentava bares e rodas de intelectuais. Foi embaixador e fez várias andanças pelo mundo a serviço do Itamaraty, mas nunca deixou de escrever e publicou livros durante quase toda sua vida.

 

Ele sofria com intensas dores de cabeça e dizia que a aspirina era sua fonte de inspiração para escrever. No entanto, descobriu que era a conseqüência de uma doença incurável, que o deixaria cego, e que acabou o levando para longe dos livros, para escrever em outro plano. Ela tirou de João Cabral a vontade de escrever e de falar, e de nós, o prazer de ler aquele que é um dos maiores escritores e poetas que conhecemos. Aos 79 anos, perdíamos João Cabral de Melo Neto.

 

Por ocasião da morte do poeta, Arnaldo Niskier disse em seu discurso:

 

“Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.”

 

Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina.

Aqui está o poeta João Cabral de Melo Neto, presente pela última vez na Academia Brasileira de Letras, de que foi, por 30 anos, uma das figuras fundamentais. Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória do Prêmio Nobel de Literatura.

Descanse em paz, poeta João. A sua presença jamais deixará de estar conosco. Teremos o consolo da sua poesia imortal.”

 

10
Abr
08

Memórias

Nas “Boas vindas” do post anterior, Jacquie, em nome de todos nós, garante um blog de bons relatos e histórias daqueles que viveram em 1968. Correndo o risco de ser reducionista, acredito que histórias são memórias, sejam essas visuais, olfativas, sonoras, ou mesmo, todas juntas.

O grande poeta Carlos Drummond de Andrade em “(In) Memória”, poema de abertura de Biotempo & a falta que ama (1968), mostra seu compromisso de testemunho diante de um retrato e revela que o resgate de memórias é feito, inevitavelmente, ao lado de agoras.

 

De cacos, de buracos

de hiatos e de vácuos

de elipses, psius

faz-se, desfaz-se, faz-se

uma incorpórea face,

resumo de existido.

 

Apura-se o retrato

na mesma transparência:

eliminando cara

situação de trânsito

subitamente vara

o bloqueio da terra.

 

E chega àquele ponto

onde tudo é moído

no almofariz do ouro:

uma europa, um museu,

o projetado amar,

o concluso silêncio.

 

Sem querer divagar muito, ao ler o último verso “o concluso silêncio”, lembrei do desabafo de Clarice Lispector “Sei mais silêncio que palavras”, na crônica Um amor conquistado.

Refletindo sobre esses pequenos pontos, acredito que as memórias, ainda mais essas com as quais queremos lidar, são feitas com intersecções de realidade, quando não, são apenas silêncio, o qual traduzo como emoção.

05
Abr
08

Boas vindas ao imaginário literário de 68

 

 Uma grande idéia que se fundamenta em pequenas ações. Seis jornalistas em busca de histórias fascinantes da época revolucionária dos anos 60 e 70. Estes jovens irão mergulhar no universo das letras, dos livros, dos autores e do movimento cultural de 1968 para trazê-las a público.

O objetivo não é relatar os fatos como se eles fossem verdades absolutas. O que queremos é invadir a mente dos jovens do século XXI, trazendo alguns relatos e histórias de vida daqueles que viveram neste período e estavam fortemente ligados ao mundo artístico, especificamente a literatura.

O caminho está aberto. Falta um passo a mais: falta o mergulho na alma, a dissecação de narrativas, a revelação de um ano que deixou profundas marcas e trouxe enormes consequências para todo o resto do mundo. Fica aqui o convite para mergulhar-mos juntos nesta fantástica história que ainda tem muito a nos contar.




 

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